29 de mar de 2015

UMA GAROA POR FAVOR


"Estranho vir aqui fazer mais um monólogo sensacionalista sobre a minha vida. Isso sempre foi, como eu adorava dizer, “minha válvula de escape”. Já faz um certo tempo que tudo perdeu o sentido que tinha, assim como muitas outras coisas...
As últimas experiências pelo qual passei foram no mínimo atordoantes demais para eu ser a mesma. Mas qual seria de fato o conceito de ser você mesmo, quando nós somos apenas uma combinação de tragédias e pequenos momentos de leveza? Vivemos em constante mutação em decorrência do que nos acontece. Quase uma lagarta em seu casulo, a diferença é que não vamos voar ao final da metamorfose e possivelmente não teremos uma chuva de cores em nós. Acho mesmo que ao final de tudo, estamos em preto e branco.
Engraçado como as pessoas sempre tentam te fazer acreditar que as coisas vão ficar bem e que vão melhorar. Deixo uma pergunta pra quem está dedicando um minuto de sua vida para ler isso: O que é melhorar? Uma pessoa que nunca passou por nenhuma turbulência, seria apenas uma criança mimada. Seria uma fabrica de traumas alheios. Então por que ficar bem para a maioria é não sofrer, se é na dor que nos tornamos pessoas melhores?
De certo aprendi que tudo que posso fazer é transformar o que já vivi em combustível para levar a frente uma locomotiva de pensamentos e ações que tornem a carga de quem está próximo a mim suavemente menos pesada. E acredite, isso transforma todos os meus problemas em detalhes escritos em mim, em desenhos na rocha que me tornei.
Para quem nunca enxergou, qualquer filme na sessão da tarde é digno de Oscar. Para quem nunca ouviu, qualquer funk é uma obra de Beethoven. Para quem não andava, correr para pegar o ônibus de manhã é o trajeto mais gratificante do dia. Para quem não tem o que comer, jiló se torna um banquete. Mas para quem já amou, para quem já viveu o bastante para ver o lado ruim do ser humano, é preciso mais que belas palavras e sorrisos largos em rostos bonitos. Talvez seja preciso uma reviravolta, um terremoto de emoções novas, um vendaval de atitudes, uma chuva de pequenas coisas cheia de importância... As vezes queria só uma garoa de voz calma e covinhas nas bochechas. E que ela seja daquelas que só vai te molhar mesmo se você ficar muito tempo exposto, por que ai a escolha é sua. Você pode andar um passo de cada vez, sem se preocupar em como sua roupa ou seu cabelo vão ficar molhados, ou pode simplesmente correr e se abrigar na primeira marquise que encontrar e esperar a garoa acabar. Eu acho que escolhi a primeira opção.
E creio que não haja espaços para arrependimentos e lamentos. Auto piedade é tão deprimente quanto um pote de sorvete com feijão no congelador. Não atingi a plenitude ou a maturidade e nem nada assim, acho que só encontrei o ponto onde algumas coisas começam a fazer algum sentido. Duas gotas de sacrifício adoçam qualquer café amargo e qualquer vida desregrada.
Ahhhhhh talvez seja válido dizer que não importa quantas pessoas te digam que você precisa largar os vícios, que precisa parar de fazer besteiras ou mudar seu estilo de vida. Seu deserto interior não vai terminar com a tempestade que todos irão fazer ao seu redor. Lembra quando eu falei da garoa? Pois bem, uma terra seca só irá ficar encharcada, voltar a ser fértil e dar frutos quando essa garoa ir molhando aos poucos sua superfície, até atingir o ponto mais profundo."
Aline Alves

23 de mar de 2015

CHAPEUZINHO E A BRUXA


"Olha ai, mais uma vez aquela velha sensação que eu já deveria estar cansada de sentir. Afinal o frio na barriga, os pensamentos constantes e o sorriso bobo nos lábios não são comuns em momentos assim? O que faria disso algo especial?
São perguntas tão lógicas que eu deveria ter as respostas na ponta da língua. Mas ainda assim tantos livros lidos, tanto estudo e tantas vivências não me tornaram capaz de dar uma resposta a tudo isso. Mas como definir um conto de fadas no qual a chapeuzinho vermelho se apaixona pela bruxa?
E eu pareço uma criança com sua primeira paixão platônica. Olho o celular a cada minuto, só pra ver se ela vai aparecer em algum momento. Imagino nossos dias como em um comercial de margarina e nossas noites como uma novela mexicana. Quero contar meu dia, minha vida. Quero saber de tudo e ainda assim me surpreender com as coisas mais banais e ao mesmo tempo interessantes que ela tem a me dizer. Quero ouvir sua voz e sentir seus suspiros em silêncio. Quero rir dos seus “trens” e “uais” e ao mesmo tempo me encantar enquanto ela discursa sobre politica, direita ou esquerda, sobre arte, música, teorias da conspiração e sobre a beleza da natureza.
Tão nova e tão diferente do que estou acostumada, que eu seria leviana se ousasse compará-la ao que estou acostumada a ver por ai. Tão perto que se eu fechar os olhos posso sentir como se o calor de seus lábios pudessem tocar a minha pele fria. Mas ao mesmo tempo tão longe que não posso largar tudo e sair correndo só pra me perder nos caminhos de um abraço demorado.
Quero sentar em uma mesa de bar e entre uma cerveja e outra, me embriagar na luz de cada sorriso largo que ela der quando eu disser uma bobagem qualquer.
Menina que apareceu como um terremoto e que acabou trazendo a calmaria onde a paz não costuma visitar.
E que venham os dias, as surpresas, os carinhos... E que não se anseie pelo que pode ou não ser, pois os melhores dias são aqueles que se vive sem esperar. Basta apenas fechar os olhos e pairar nesse momento. Pois não preciso ter o céu, já me basta ter uma única estrela."
Aline Alves