22 de mai de 2013

INCUBUS



"Por muito tempo desejei que olhos cegos me vissem, mas hoje sinto que foram os meus olhos que se fecharam!
Tentei ser o que eu de alguma forma sempre soube que não seria e assim acabei me perdendo nas confissões que nunca fiz.
E naquele dia uma repetição marcou uma vida: Levanta, levanta, levanta... As palavras ainda ecoam aqui dentro.
Me sinto meio tola por insistir em conversar com o travesseiro, em buscar conforto num abraço com o cobertor, em olhar perdida para o ursinho na prateleira...
E ai vejo que não tenho tudo, mas tenho o suficiente e acabo deixando de ser frágil diante de quem sempre teve tudo, mas ainda assim está imerso em um vazio inexplicável.
Talvez não seja um câncer, mas doeu e ainda dói. Sei que são cinzas, mas o vento não levou o último grão de poeira.
Eu gostava de ser a menininha, mas foi preciso crescer. Não que eu quisesse isso, mas a realidade dos fatos e o caminho que as coisas tomaram, foram capazes de matar os sonhos que haviam sido alimentados.
Mas nem as brincadeiras com o carro amarelo ou com a formiga, deixaram de estar em mim... Apenas a inocência se desfez!"
Aline Alves


12 de mai de 2013

VAZIO


"É incrível a capacidade que eu tenho de me sentir só, mesmo que eu tenha a prova mais linda do mundo de que eu não estou sozinha nesse caos.
Não posso dizer que falta algo... Tudo o que posso dizer é que alguma coisa não está no seu lugar!
Não sei se a culpa é da distância enorme que me separa de mim, que me afasta das minhas raízes e que mantém a melhor parte de mim a quilômetros do calor dos meus braços.
Não sei se são as cobranças, em sua maioria infundadas, que me tiram o sono.
Não sei se é por causa dessa inercia no qual me afundei que sinto um vazio descompensado e arrogante em mim.
Talvez seja só um trauma das minhas andanças ou um reflexo cinza das minhas vivencias...
Por sorte as lembranças de um câncer de 7 anos viraram cinzas nas mãos daquela que foi capaz de trazer a luz para as trevas. Ou como ela disse: “Seu passado são cinzas agora, pois seu presente e seu futuro estão em sua frente.”. E é em frente que pretendo ir...
Mas e essa dor crônica, esse vazio intrínseco, essa falta que não pode ser preenchida? Já é algo tão enraizado em mim, como uma erva daninha, que sinto que a cada vez que o arranco ele nasce maior e mais forte!
Sinto que preciso revirar tudo e refazer aquilo que nunca esteve de fato estruturado em mim, mas ao mesmo tempo sei que sou completamente covarde e incapaz de enfrentar meus medos e lutar contra meus monstros. Se não tenho coragem de me assumir diante daquela que deveria saber tudo de mim, como eu poderia pensar em enfrentar o mundo?
Não sei ao certo o que vai ser, mas sei que se não for diferente, em breve nem isso mais conseguirá existir!
Ou eu começo a deixar os espinhos e o suor ou me contento com lágrimas de flores mortas..."
Aline Alves 

7 de mai de 2013

GARÇOM, POR FAVOR, UM CAFÉ PARA DOIS


"Garçom, por favor, um café para dois.
Apenas uma xícara, pois nesse caso dois corpos formam um só coração.
Talvez tomar um café não seja tão romântico como pedir um prato de macarronada e dividir o mesmo fio de espaguete, mas quem disse que o amor está preso aos clichês?
Não precisa trazer açúcar nem adoçante, o doce que dará o sabor ao café já está em nossas bocas... Quer algo mais doce do que estar apaixonado?
Não se importe se o café estiver frio, pois nossos corações estão aquecidos o suficiente.
E se ele vier fraco? Tudo bem, já trago dentro de mim um sentimento forte o bastante.
E eu nem me importo se ele demorar pra chegar, assim tenho mais tempo para estar ao lado da minha outra metade.
E assim que trouxer o café não se preocupe em nos interromper, deixe em um canto da mesa e pode sair sem muita cerimônia. Deixe o cheiro do café se misturar aos nossos perfumes...
E quando esta xícara estiver novamente vazia logo você me ouvirá chamar novamente: Garçom, por favor, um café para dois.
E talvez essa noite você nos sirva umas cinco ou seis xícaras, mas uma de cada vez. O charme nisso tudo está em dividir o café com a pessoa que pretendo dividir a minha vida."
Aline Alves

CICLO SEM FIM


"Estive aqui, embora todo o tempo pensasse em fugir.
Estive próxima, embora ansiasse pelo isolamento.
Dediquei palavras de acalento, embora preferisse me manter em silêncio.
Ouvi os gritos e as acusações vorazes, embora minha real vontade fosse tampar os ouvidos e fingir que não era comigo.
Aceitei passivamente as escolhas que não me beneficiavam, embora desejasse de fato armar uma guerra.
Acreditei nas histórias mais improváveis, embora quisesse desde o início dizer que sabia da verdade.
E ao final, recebi ingratidão no lugar de entendimento.
Recebi acusações ao invés de conselhos.
E quando todos estavam ocupados demais mostrando ao mundo o quanto estavam machucados e gastavam todo seu tempo jogando sem o menor pudor sua dor sobre mim, eu engoli meus traumas e escondi a forma como tudo me afetou.
Hoje ainda permaneço marcada, talvez perdida, certa de que mudei e ainda assim imersa em um ciclo sem fim no qual a única afetada sou eu."
Aline Alves

5 de mai de 2013

ENTRE DELÍRIOS E PENSAMENTOS SENTIMENTAIS


"Dia frio de sorrisos árduos
Tão denso quanto um céu nublado
Dolorido como afagos de um arame farpado
Com as dores de um viajante descalço.

Entre disparidades e imparcialidades
Tornou-se alto o preço da passividade
Formando uma divida eterna entre a consciência e a realidade

Canções e vozes ecoam por todo lugar
Singularmente tentando me fazer enxergar
A vida real que havia entre as flores mortas

Mais um gole de água pura, tão normal e sem gosto
Contrapondo o sabor de dias de fel e esforço"
Aline Alves