30 de out de 2014

AQUELA CALÇADA


"Sentou-se sozinha naquela rua pra ver o sol se por. Acendeu o último cigarro que tinha no bolso, tragou, prendeu a fumaça e em seguida soltou lentamente.
Em seu peito havia um terremoto de emoções. Tristeza, magoa, desejo de vingança, desilusão...
Dizem por ai que nós não deveríamos deixar que ninguém nos afetasse negativamente, mas até que ponto somos capazes de nos manter de pé?
É fácil falar quando não é você quem continua levando porrada uma, duas, três vezes.
E ali ela ficou observando e apenas isso. Viu a luz diminuir, as lojas fecharem, as pessoas mudarem o semblante e sumirem na escuridão.
Não queria voltar pra casa, não mesmo. O que deveria ser um refugio havia se tornado um pesadelo a muito tempo.
Ignorou veementemente os olhos que a julgavam de longe. Já não se importava!
Costumava conversar sozinha, mas ali queria sentir apenas o silêncio. Não expressava emoções e nem tinha vontade de chorar. Seu desabafo estava em cada baforada de fumaça que jogava na atmosfera de suas lamurias.
Via cada segundo passar pensando no quão aterrorizante seria ter que fazer o caminho de volta.
Era véspera do dia das bruxas, e daí? Seus medos e monstros a perseguiam todos os dias desde sempre.
Acorrentou os sonhos, aprisionou os desejos e vivia mecanicamente a certeza que estamos aqui só por estar.
Já amou e desamou uma centena de vezes e já não acreditava que o amor puro e verdadeiro pudesse existir.
Confiou em tantas pessoas que se tornou leviana ao ponto de desconfiar até do sorriso das crianças.
E que se dane as certezas que o mundo tenta te fazer engolir. Nenhum clichê pode se contrapor a uma sequência de vivências desastrosas e traumatizantes.
Levantou-se completamente bamba, sem apego a nenhum desejo e caminhou feito um zumbi. Abriu o portão de casa, respirou fundo e voltou pro seu inferno matinal.
Afinal a vida não é gentil, as pessoas não vão se importar de verdade e ainda assim é preciso continuar. Será mesmo?"
Aline Alves

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