30 de out de 2014

AQUELA CALÇADA


"Sentou-se sozinha naquela rua pra ver o sol se por. Acendeu o último cigarro que tinha no bolso, tragou, prendeu a fumaça e em seguida soltou lentamente.
Em seu peito havia um terremoto de emoções. Tristeza, magoa, desejo de vingança, desilusão...
Dizem por ai que nós não deveríamos deixar que ninguém nos afetasse negativamente, mas até que ponto somos capazes de nos manter de pé?
É fácil falar quando não é você quem continua levando porrada uma, duas, três vezes.
E ali ela ficou observando e apenas isso. Viu a luz diminuir, as lojas fecharem, as pessoas mudarem o semblante e sumirem na escuridão.
Não queria voltar pra casa, não mesmo. O que deveria ser um refugio havia se tornado um pesadelo a muito tempo.
Ignorou veementemente os olhos que a julgavam de longe. Já não se importava!
Costumava conversar sozinha, mas ali queria sentir apenas o silêncio. Não expressava emoções e nem tinha vontade de chorar. Seu desabafo estava em cada baforada de fumaça que jogava na atmosfera de suas lamurias.
Via cada segundo passar pensando no quão aterrorizante seria ter que fazer o caminho de volta.
Era véspera do dia das bruxas, e daí? Seus medos e monstros a perseguiam todos os dias desde sempre.
Acorrentou os sonhos, aprisionou os desejos e vivia mecanicamente a certeza que estamos aqui só por estar.
Já amou e desamou uma centena de vezes e já não acreditava que o amor puro e verdadeiro pudesse existir.
Confiou em tantas pessoas que se tornou leviana ao ponto de desconfiar até do sorriso das crianças.
E que se dane as certezas que o mundo tenta te fazer engolir. Nenhum clichê pode se contrapor a uma sequência de vivências desastrosas e traumatizantes.
Levantou-se completamente bamba, sem apego a nenhum desejo e caminhou feito um zumbi. Abriu o portão de casa, respirou fundo e voltou pro seu inferno matinal.
Afinal a vida não é gentil, as pessoas não vão se importar de verdade e ainda assim é preciso continuar. Será mesmo?"
Aline Alves

20 de out de 2014

QUANDO ELA SORRIU


"Ela sorriu, controlou o ciúme e mostrou os dentes.
Deixou de lado as magoas, incertezas e me chamou pra conversar. Disse que esperava pelo dia em que seriamos uma só.
Eu me calei, me fiz de durona. Isso de amar e corresponder se tornou complicado demais pra mim.
Ela por sua vez foi doce, romântica e me tratou da mesma forma que tratou da primeira vez que nos falamos a uns 2 ou 3 anos atrás. Sinto tanta falta de coisas assim que me deixei levar...
Eu sabia que já tinha lhe ferido algumas vezes e que não merecia aquelas palavras, mas ela foi inexplicavelmente afável. Lembrou de momentos que pareciam ser tão simples, mas que em sua visão haviam sido mágicos. Falou das esperanças, expôs fantasias...
E eu me permiti viajar em suas palavras. Respirei fundo, fechei os olhos e me entreguei aquilo tudo.
E meio sensual ela me provocava, atiçava minha imaginação e quebrava qualquer distância.
Segurei meu despudor, sabendo que de criminosa virei heroína.
Que se passem os meses e que venham os dias em que tê-la não seja só um ato de imaginar."
Aline Alves

16 de out de 2014

TRIÂNGULO DAS BERMUDAS


"Muito se fala de amor e ódio, mas se vive muito o ódio e pouco o amor.
Amor só existe nas teorias dos livros e nas músicas românticas que embalam nossas ilusões.
Mas o ódio meus caros está ai pra quem quiser ver, nas ruas, na pele do negro, na carcaça da mãe solteira, no estereótipo do homossexual, no rosto da criança pobre...
Eu devo ser uma grande hipócrita mesmo, uma leviana superficial. Vivo por ai falando de amor, mas percebi que eu não sei amar. Já tem muito tempo que não sei o que de fato é o amor. Como alguém que vive o lado lírico da vida pode ser tão frio e vazio assim?
Não acredito em mudanças, esperanças, amores que vencem barreiras e tudo isso que as novelas fazem as pessoas esperarem.
Em contra partida vivo espalhando intolerância, rancor, stress e raiva por ai, dou conselhos do tipo “esquece, desiste, deixa, não tenta!”. Tola!
O amor deve estar nos momentos que nos fazem feliz e assim como esses momentos ele sempre se vai. Possivelmente é só o tempero dos poemas e canções que alimentam nossa alma, mas não alimentam a vida real.
Me emergi na vida real de tal forma que precisaria me apaixonar por um anjo pra acreditar que existe alguma magia ou pureza nas pessoas e infelizmente o mundo está cheio de pessoas como eu, ou pior ainda, pessoas que só querem curtir e não assumem nenhum compromisso com seu próprio coração.
Me cansei de encontrar pessoas incrível que tem data de validade curta. Não posso mais entrar na vida de pessoas que vivem num elevador, no qual eu entro no sexto andar e vou até o décimo. Após chegar ao topo ou me obrigam a descer naquele andar e voltar de escada ou me levam sem escalas até o térreo.
Não creio, não espero... Não guardo rancor, mas não esqueço.
Estou cansada de ouvir que sou uma pessoa incrível e por isso ninguém é bom o bastante e que eu mereço coisa melhor. Que maldita coisa é essa que nunca chega? Devo ser um triângulo das bermudas!"
Aline Alves

13 de set de 2014

NA BRISA DO MEU OLHAR


"Percebi que tenho agido feito uma criança mimada nos últimos tempos, afinal não era eu vivia estufando o peito pra dizer que era a garota que amadureceu cedo demais?
Estranho ver que eu tenho me tornado tudo que sempre critiquei. Acho que a gente critica qualquer coisa que não entende e quando vive de fato, percebe o quanto foi idiota por muito tempo.
Lembro que um ano atrás jurei não fazer promessas, falar de amor ou sofrer por alguém... Hoje olha onde eu me encontro.
Já sei que esse é meu maior defeito, me doar demais, me entregar demais e achar que o mundo vai me retribuir isso. Sempre me iludo com novos amores, sempre espero finais inesperados, surpresas arrebatadoras e que as pessoas sejam intensas como se estivéssemos vivendo nossos últimos momentos. Mas a grande realidade é que todos sempre agem como se o amanhã fosse certo, como se sempre houvesse uma segunda chance de corrigir as coisas... Uma grande pena tudo isso.
Não peço mais que um pouco de atenção, carinho e dedicação e ainda assim isso parece ser pedir demais.
Já ouvi falar muito sobre a pessoa certa no momento errado, mas o momento não somos nós quem fazemos? Se tudo na vida passa e o que fica são os laços que criamos com as pessoas, qual o sentido disso tudo?
Acendo mais um cigarro e fico observando a fumaça rasgar o breu da noite, enquanto isso minha imaginação vai longe. Fico aqui pensando em como seria se isso, se aquilo... Sem saber muito bem o que fazer, como se viver pedindo a Deus e imaginando finais felizes fosse o suficiente pra mudar uma história que parece bem encaminhada.
Por fim decido deixar a brisa no meu olhar trazer o brilho de volta, já que nada mais faz meus olhos vidrarem assim. Começo a rir, mesmo que seja só um momento vazio. Verde virando cinzas no ar, penso em mil coisas, quero explodir, quero chorar, a pupila dilata, me seguro, vou pra casa e durmo.
E durante a noite minha mente faz questão de trazer pros meus sonhos justamente aquela protagonista que eu tento transformar na maior vilã, pois eu sei que se o ódio tomar conta de mim tudo se torna mais fácil.
E quando acordo pela manhã me deparo com uma ressaca moral enorme e uma vontade de repetir tudo de novo.
A maior pena é que as coisas não dependem de mim... Triste não ser o bastante, triste saber que meus olhos vermelhos não são só por causa da fumaça..."
Aline Alves

O HERÓI E A PRINCESA


"Firmei minhas mãos no volante do carro quando elas começaram a soar.
Eu falava sobre qualquer coisa e olhava para frente, por medo de encará-la.
Parei o carro em uma rua qualquer, respirei fundo pra tomar coragem, esperei o momento e a beijei... Acho que eu seria leviana se tentasse descrever o que senti.
Me perdi entre um suspiro e outro e quando me dei conta seu corpo estava sobre o meu. Ela me olhava, me mordia entre um beijo e outro, me provocava e eu me sentindo uma criança em suas mãos.
Foi como sol e lua num eclipse lindo e perfeito. Como Yin e Yang que precisam um do outro para manter o equilibro. Como a chuva se misturando a luz do sol e colorindo o céu na aquarela de um arco-íris.
A noite se foi e meu corpo que antes tremia, agora estava esquentando o dela. Se antes ela me dominava, agora eu me sentia o herói protegendo a princesa.
Um dia foi ela o fogo com o isqueiro, mas foi o desejo dela que queimou em mim.
O que me resta afinal é esperar e aprender a me adaptar, na vontade que aquela noite se repita várias vezes."
Aline Alves

17 de ago de 2014

QUEM EU SOU?


"Sempre acreditei em amores impossíveis, em certezas improváveis e desfechos mirabolantes para as histórias mais manjadas.
Sempre fui a garota com a carcaça dura e o interior terno. Aprendi a ser forte diante do mundo e desabar diante de mim.
Sempre esperei pelo pior, mas nunca deixei de acreditar que algo bom pudesse acontecer em algum momento, mesmo que ele fosse breve e se perdesse no tempo.
Definitivamente não sei dizer adeus. Alias tudo que é definitivo me assusta.
Ainda tenho medo do escuro, de fantasmas, monstros, ETs, da morte e da solidão. Acabei descobrindo que tudo que mais me assusta me persegue constantemente.
Nunca perdi a fé em Deus, ainda me pego chorando e conversando com ele em algumas madrugadas tristes.
Sempre me apeguei a lembranças, dizem que isso acontece porque diferente das pessoas elas não mudam... Pode até ser, mas creio que as lembranças boas que carrego, embora sejam poucas, são aquilo que me mantem sã em meio a tanta coisa ruim.
Gosto de sorvete de maracujá, café doce, rosas vermelhas, músicas desconhecidas, cerveja gelada e amores quentes. Inteligência me atrai, mas pureza e inocência me encantam.
Quero uma família, uma casa com jardim na entrada e uma goiabeira no quintal, uma filha pra ensinar e alguém pra ouvir minhas lamurias ao final do dia, me abraçar e dizer que está tudo bem.
Sinto falta de olhar a lua, de um abraço na praça em noite fria, de um olhar que fala em silêncio...
Uns me acham forte, outros fria, já ouvi falar que eu sou feliz e bem resolvida... Acho mesmo que sou adulta demais em determinados momentos e em outros sou uma criança mimada. Demonstro uma alegria inexistente e escondo uma tristeza inimaginável.
Acho que nem eu sei quem sou...
Só sei que não nasci para despedidas. Definitivamente não sei dizer adeus!"
Aline Alves

9 de ago de 2014

UM DIA A SE ESQUECER


"Rasgou como o vento frio no corpo quente.
Tentei de forma tola represar a água salgada que ameaçava jorrar daquele olhar triste.
E aquilo cortava a alma impiedosamente de um jeito mais brutal do que a lâmina em pulsos desesperançosos.
Não houve entendimento e muito menos compreensão, estava mais para uma noite misteriosa de um filme de terror qualquer.
Tanta inquietação em meio a uma chuva de pensamentos caóticos não deveria ser rotina... Não mesmo!
As vezes é incrível como o mundo conspira para alimentar dores assim: uma briga, uma noite ruim, a música melancólica que decide tocar, a foto que me olha na parede gritando aquilo que estava adormecido, a propaganda na TV insistindo em me vender presentes que eu nunca tive a quem dar...
A vida tenta nos ensinar a ser forte, infelizmente ela não avisa que com a força vem o silêncio, os conflitos internos, os monstros no armário dos sonhos, a descrença, a tristeza, a maturidade no olhar da criança e tantas outras coisas que talvez não mereçam ser ditas aqui."
Aline Alves

29 de jul de 2014

BEIJA-FLOR


"Sou eu assim beija-flor
Depois de tanto provar
Flor de todo sabor
Olha onde eu fui posar

Depois de experimentar leques de tantos jardins
Fui me apaixonar pela rosa que decidiu brotar... Em meio ao capim

Sem adubo e sem irrigação
Sob a água da chuva e o calor do verão
Foi a obra mais bela nascida nesse chão

Muito mais do que qualquer floricultor poderia cultivar
A obra mais rara que se pode imaginar

E depois de provar o pólen com sabor de mel
Não precisei mais voar pra tocar o céu

E de beija-flor decidi me tornar
Poeta lírico só pra eterniza-la...

Hoje é minha flor, rosa do meu jardim
Beleza inigualável, presente de Deus pra mim!"
Aline Alves

21 de mai de 2014

O QUE ELA QUIS, DO MEU JEITO


Ela me pediu um poema e quando me dei conta estava fazendo um misto de Carlos Drummond e Augusto do Anjos, enquanto parafraseava Renato Russo em seu ouvido.
Ela quis um presente que a fizesse lembrar de mim nas noites de insônia e eu apareci em sua porta as quatro da manhã estrelando uma versão desafinada, mas cheia de emoção de “Lave, Leve, Love”.
Ela me pediu uma declaração de amor que pudesse ser maior que as frases de novela e eu gentilmente desliguei o Wi Fi e a Tv, abri o primeiro livro que encontrei na prateleira e interpretei as primeiras palavras que pude ler.
“Seremos dois novos amantes
pelo amor energizados,
transformados,
mas em quê?
Quem eras antes de mim?
Quem sou antes de você?”

Ela estava sonolenta num domingo a tarde e eu como boa chata que sou, a arranquei do sofá comecei uma dança meio estranha ao som de “Love Of My Life”.
Ela estava brava com o mundo e não queria conversar, eu sentei ao seu lado e fiquei por horas olhando para a parede esperando ela brigar ou se render ao meu silêncio que acompanhava vagarosamente o seu.
E ai ela me perguntou o que ela fazia por mim já que eu procurava me adaptar a cada momento, respirei fundo, dei aquele velho sorriso de canto de boca que marca quando quero me gabar e respondi sem titubear:
“Você faz eu me reinventar a cada dia e ser cada dia mais inusitada só pra ver brotar sempre aquele sorriso que só você sabe dar.”
Ela sorriu - ahhhh aquele sorriso – me abraçou e começou a cantar:
“De todos os loucos do mundo eu quis você...”
Aline Alves 

Referências: Lave, Leve, Love – Alexandre Nero; A Marca de Uma Lágrima – Pedro Bandeira (Pg 22) ; Love Of My Life – Queen; De Todos Os Loucos do Mundo – Clarice Falcão.

12 de abr de 2014

COADJUVANTE DO SEU SHOW


"Ainda lembro da cor dos olhos dela brilhando como a lua quando clama por atenção.
Talvez tenha sido um erro amar o sol enquanto a lua estava no meu céu, mas nunca fui a leitora de um livro só.
Engraçado mesmo é que não havia sequer estrelas no céu aquela noite...
Ela... Eu... A noite.. Sussurros... Suspiros...
E quando me dei conta seus cabelos se misturavam aos meus e sua boca só conhecia o caminho que levava a minha.
Era uma mistura de cores, sabores e sensações, que não sei descrever ao certo se foi real ou apenas mais um delírio meu.
E num fluxo orquestrado minhas mãos passeavam pelos caminhos de sua pele, suas pernas se entrelaçavam nas minhas de tal forma que eu não sabia distinguir o que era de quem.
Os olhos cor de céu, os cabelos cor de sol, a boca com sabor de sorvete em dia quente e eu era apenas coadjuvante no show que ela se propôs a fazer.
Seu gosto ficou em mim e seu gozo deixou um ar de que foi eterno...
Hoje o sol me aquece, mas sinto falta mesmo é do luar na minha noite fria."
Aline Alves

SORRIA MINHA CARA


"O que houve?
Pra onde vai esse sorriso que encanta até em foto?
Talvez um desgaste emocional ou quem sabe uma desilusão qualquer? Prefiro nem entender, continuo achando que nada deveria dissipar esse brilho que abre covinhas nas bochechas e caminhos nos meus pensamentos.
Pare, respiro, feche os olhos e se perca em qualquer lugar onde nada consiga arrancar a coisa mais linda em você.
Não sei seus caminhos, não sei suas dores, não sei quem é você, mas sei que nada pode ser importante o bastante para valer algo tão precioso.
Se te cabe de consolo, já estive do outro lado da desilusão e sei que o caminho é um só e é exatamente o oposto desse que você está agora.
Que venha o vendaval, que venha a tempestade e que em seu interior permaneça a quietude e a calmaria da certeza que o poeta tinha razão: É claro que o sol vai voltar amanhã.
Sorria minha cara e saiba que o fim da escuridão está próximo!"
Aline Alves

12 de mar de 2014

O CONTROVERSO MUNDO DE LÍLI


"Mesmo sabendo que não seria fácil para 90% das pessoas entenderem tudo isso achei prudente falar um pouco sobre esta história.
Líli é apenas uma garota comum (ou quase) que passou por coisas ruins, conheceu pessoas terríveis, viu um lado escuro da vida, mas decidiu não ser como aqueles que insistiram em fazer da sua vida um inferno. Ela nunca foi de balada e nunca gostou de multidões, mas a solidão sempre foi algo que lhe incomodou (embora fosse algo inerente a sua vida).
            - Líli sempre achei que você precisasse saber que te acho uma pessoa tão forte. Você já passou por tantas coisas e ainda assim está ai vivendo, sorrindo e seguindo em frente. Você é um exemplo para mim. – Disse um tolo qualquer.
Era tão comum para ela ouvir coisas assim de pessoas que nem se quer poderiam imaginar aquilo que ela vivenciava diariamente em seus pensamentos. Sabe aquela história de que se o mar está calmo na superfície, quer dizer que algo está acontecendo nas profundezas? Pois bem, Líli era a prova viva disso! Seus pensamentos, ações, decisões e instintos eram baseados em um emaranhado de dúvidas e medos que o que para os outros parecia força para ela não passava de uma forma covarde de esconder o que ela era na verdade. Mas quem era Líli? Acho que nem ela mesma sabia...
            Já faziam três ou quatro anos que ela havia se perdido entre afirmações falsas que ela confiava tão ardentemente que em seu mundo acabaram se tornado realidade. Dentre muitas crenças que ela tentou seguir, poucos ensinamentos ficaram. Era difícil para sua mente assimilar tantas coisas ruins em tão pouco tempo e ainda assim insistir em crer em tudo que tentava fazê-la crer que as coisas ficariam bem.
            Ela sabia que o sol iria nascer na manhã seguinte, mesmo que a noite fosse árdua, porém nunca foi inocente ao ponto de negar que as nuvens também estariam ali.
            Havia amor escondido em algum lugar daquele labirinto existencial que se instaurou dentro dela, algo parecido como um gueto formado de sentimentos e confusão. Embora ela soubesse que ainda existia chances de alguém encontra-lo em meio a tudo isso, Líli não fazia o menor esforço para que isso acontecesse. Já estava cansada das certezas que os contos de fadas nos dão e que por fim servem apenas para mostrar o quanto as pessoas são ótimas para inventarem histórias lindas sobre a pureza e péssimas para viverem isso.
            Já era quase 3 da manhã de quarta-feira, quando decidi falar sobre tudo isso. Achei que se eu tentasse expor de alguma forma o que ela costumava sentir, isto poderia aliviar de alguma forma a tsunami de pensamentos que rodavam sua cabeça e não a deixavam dormir. Mas ela nunca foi de ouvir muito sua consciência quando o assunto era sobre si mesma.
            Líli sempre foi do tipo que se importava muito mais com os outros que consigo mesma. Cansei de lhe dizer que essa não era uma mania saudável, mas ela nunca ouvia. Aliás, ela era mestre na arte de se render aos seus vícios, por menores que eles fossem. Ela pouco se importava com o que lhe fazia mal, desde que isso não atingisse ninguém mais.
            Como era de costume, ela falava mais do que fazia. Sentia mais do que falava. Ouvia mais do que demonstrava. Sempre foi o tipo que observava demais e estava ciente de coisas que a grande maioria achava que estava escondendo.
            Espere, onde ela está indo? Ah, como era de se esperar ela vai tentar se desligar para se esconder de mim. Normal isso acontecer, ela detesta que eu fale ou cobre alguma coisa.
            Acho melhor tentar faze-la dormir, pois amanhã será mais um dia no qual ela vai se sentir vazia e demonstrar que está cheia de si. Embora não pareça, cansa muito viver assim. Mas quem sabe eu não volte a falar sobre o controverso mundo de Líli quando a madrugada voltar a não ser gentil com ela e acredite isso é uma rotina."
Aline Alves

11 de fev de 2014

SOBRE A DISTÂNCIA E O TEMPO


"Te pensar me corrói
Não te ter me destrói
Já não sei o que quero
Apesar de te amar

Tanto tempo perdemos
E estamos perdendo
Tão longe um do outro
Precisando nos afastar

Quanto mais eu reflito
Mais eu sinto sua falta
Nosso tempo vai morrendo
E eu não quero te deixar

Ao mesmo tempo ainda vivo
E a vida não dá trégua
Eu preciso do carinho
Que você não pode dar"
Thiago Lamas

MONSTROS


"Eu costumava amar a noite. As estrelas, a escuridão, o clima... Me sentia em paz. Mas já faz um tempo que não é mais assim.
A noite é quando os monstros vem pra me pegar. Eles saem de baixo da cama, do armário, dos meus mais terríveis pesadelos, e eu não tenho mais fôlego pra correr. Eles acabam me alcançando e me derrubando toda vez, me convencendo de que sou fraco, que não sou forte pra enfrentá-los. Me fazem sentir pequeno, frágil, totalmente à merce de seus desejos.
Eu não consigo fugir, nem controlar. Só consigo fechar os olhos e chorar... chorar... Eles vão me assombrar até eu não aguentar. Até eu não suportar. Até eu desistir.
E eu sinto, cada vez mais, que não está longe. Em breve eles me levarão, e eu nunca mais verei a luz do dia."
Thiago Lamas

29 de jan de 2014

MONÓLOGO INTERNO


"1, 2, 3 passos
E os carros passam em um movimento orquestrado
O pipoqueiro pacato, o homem fumando no ponto de táxi e o grupo de ambulantes na esquina se perdem em meio ao tic tac das horas que não param.
E ainda assim o vento insiste em fazer curvas entre os prédios e levar consigo tantas coisas que ninguém vê no vai e vem da cidade.
Realmente existem coisas no coração das pessoas que ninguém deve saber.
Batidas , compassos, pensamentos, reflexões, inseguranças, certezas, ressentimentos, marcas e de fato quem eu sou?
Na água da fonte molham-se vidas secas, sob o sol morno que bate no chão buscando romper as sombras que se espalham pelos cantos.
Creio que na verdade se comprometer e compenetrar vale mais do que viver como se o amanhã fosse certo ou se ele não existisse.
Quem sou? Talvez alguém de bem, mas certamente alguém melhor do que era no verão passado.
E no número 13 ficou a fumaça do que assombra...
E a cidade não para entre 1, 2, 3 tic tacs e eu sigo em um monólogo interno que me torna diferente do que a maioria dos olhos podem ver ao iluminar dos faróis dos carros."
Aline Alves

2 de jan de 2014

DESCANSE EM PAZ


"Vai me dizer que ninguém te avisou que essa hora chegaria?
Como se sente vendo desmoronar toda a tragédia que você arquitetou?
Parece que você se esqueceu de que nada se sustenta sobre um alicerce ruim!
Tão vazia e falsa como as promessas que nunca cumpriu...
Aonde está o seu caráter? Aonde está o seu sorriso e olhos brilhantes? A sua expressão tão suave esconde a besta que está dentro de você.
Você mente com a mesma facilidade que pisca. Se julga tão verdadeira e correta, mas é pior do que muitos.
E pra onde foram as palavras e as certezas que te faziam confiar tão cegamente que estava certa?
Quando a vida tenta nos ensinar devemos sentar e tentar aprender, pois ela é cada vez mais cruel quando repete a lição.
E você se especializou em cair e rastejar, por acaso é tão difícil assim aprender a caminhar?
A vida te deu uma chance, você deixou a pseudo glória subir a sua cabeça.
Quanto maior a altura, maior será a queda.
Isso é só o começo.
Você deixou e deixa muitos na lama, mas depois ergue as mãos pro céu pedindo uma luz no fim do túnel.
Procure aqueles que você ama... Ah sim, você não pode amar. Talvez você não ame nem a si mesma.
Você estava e sempre estará cega e cheia de si.
De todos os lados, em todos os aspectos, com todas as certezas eu te pergunto: Quem realmente é você?
Apenas um parasita? Um verme? Uma sanguessuga que sempre consome tudo que as pessoas podem lhe dar e depois as descarta como se elas não tivessem nenhuma importância.
Acho que você é sua pior inimiga, seu pior pesadelo, seu maior medo, a pedra em seu próprio caminho, o punhal em suas costas...
Não se esqueça que sempre que você plantar o mal ele voltará para você, na mesma intensidade.
Quando você quer, você sabe ser forte e lutar pelo os seus ideais. Você sabe como agir, você é manipuladora.
Não só você, mas como uma legião de demônios que lhe rodeiam e lhe adoram, veneram e se curvam diante aos seus pés e admiram as suas palavras muito bem colocadas.
Ó querida, pare de se enganar, diferente de você não preciso correr o mundo para difamar. Eu deixo a vida rolar e te entrego mas mãos dos justos para que aconteça o que tiver que acontecer.
Eu me apego fácil, mas também largo fácil. Você me fez desistir de você.
Eu corri atrás, tentei lhe fazer sorrir, lutei contigo e no fim pra ti nada significou.
Você não se importa e nunca se importou.
Mas eu só tenho que lhe agradecer, porque depois do desprazer de ter você em minha vida, pode ter certeza que estou fechando portas para muitos.
Gente igual a você não fará mais parte da minha vida.
Posso lhe encontrar, até cumprimentar e agir como se nada tivesse acontecido, mas você não tem significado nenhum pra mim.
Não senti, não sinto e não sentirei sua falta.
Descanse em paz."
Aline Alves e Vitória Amorim